A palavra nasce para ser arte
Ainda refletindo no evento Conversas Literárias (idealizado pela editora Laranja Original).
Maio de 2026
Vamos olhar o surgimento da escrita há milhares de anos atrás.
Nosso ponto de partida é o livro magnifico de Yuval Noah Harari, Sapiens (Publicado em 2015), cujo subtítulo é justamente o que queremos: Uma breve história da humanidade.
Se esse
tema fosse minha pesquisa acadêmica, uma hora ou outra, esse
livro chegaria até mim. Seria eu, o universitário em uma livraria, à espera de
um sinal divino, até que este livro tomasse de assalto meu olhar. Eu o levaria pela
capa. Mais fácil ainda: uma simples consulta na
lista de livros mais vendidos da Amazon confirmaria minha compra.
Em Sapiens: Uma Breve História
da Humanidade, um dos capítulos dedicados à escrita nos apresenta o povo fenício como a
possível origem do nosso alfabeto.
A economia desse povo era majoritariamente baseada no comércio marítimo. Dado a isso, esse povo viu a necessidade de catalogar e contar.
Por essa e mais outras das reflexões de Yuval, temos o indício de que sua escrita pode
ter surgido com uma função específica: a administrativa, ou, mais precisamente,
financeira.
Mais alguns capítulos a frente e temos a história do dinheiro. O qual também nasce para desempenhar uma solução frente a burocracia.
Um problema sempre causa uma superação.
Mas a escrita como conhecemos hoje é diferente. Para começar, pense nisso: escritores conversando com outros escritores, sobre seu dom, sobre sua literatura, nem mesmo se referem à escrita como: “escrita”. Existe um jeito mais poético. Eles falam: “me encontrei na palavra.”. Sempre existe um jeito mais poético. E admito que metonímias tem seu charme.
A escrita é essa invenção especial.
Só as invenções torpes da humanidade nascem com a função de desburocratizar processos humanos. Pelo menos é o que tudo indica.
Aproveito para avisar que as referências do livro Sapiens, por aqui cessaram.
Temos a escrita como uma ferramenta para a ação de registrar. Isso é verdade. Entretanto, escrever não é apenas registrar para lembrar depois; é escolher o que permanece. Escrevemos também para fazer aquilo, que é indescritível, mas beira o sentido da expressão “saber de cor”.
A escrita também é esse artefato da ação de se expressar do ser humano. Que eu consigo descrever como: se transpor para o fora de si.
A escrita vem antes da história registrada.
A vontade de se expressar nasce nos primeiros humanos os fazendo criar ferramentas. Assim como a necessidade de se alimentar, de purificar a água, de se curar e de se aquecer.
Um problema sempre causa uma superação.
Humanos criaram ferramentas para caçar, saciando a fome. Mas criaram também ferramentas para se expressar. Como um direito inalienável. Está até na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (Será?).
Uma dessas ferramentas criadas, há cerca de nove mil anos atrás, se trata de um tubo – similar a uma flauta(outra história) - onde o usuário utiliza o sopro para aplicar pigmentos na parede. Em pouco tempo, descobriu-se que ao posicionar a mão contra a parede e soprar o pigmento ao seu redor, formava-se uma silhueta. A ausência de tinta marcava a presença do corpo (o que os designers chamam de closure, outra história novamente).
Esse
gesto simples, deu origem a algumas das primeiras expressões humanas
registradas. Se trata de humanos que marcaram sua presença na parede de uma
caverna. Confira as pinturas rupestres da Cova das
Mãos.
Esse movimento de se expressar aconteceu em diversas partes do mundo. Em uma pesquisa rápida, você pode chegar a registros dos primeiros humanos que temos vestígios.
A escrita como ferramenta de arte nasce com os primeiros humanos: o registrar-se nas paredes. Para os mais recentes: nas paredes da mente, metaforicamente.